(Este blog é totalmente dedicado a Laura e Lara, para quem todas as mensagens que aqui posto, me dirijo. Sem dizer adeus.)

sexta-feira, 22 de março de 2013

"Quando olho para ti"

O que sei quando olho para ti é que gostava que estivesses longe. Que não estivesses aqui mas do outro lado, do lado onde não me visses. Porque o que me incomoda não é o que dizes mas o que deixas por dizer e que te sei  ler sem dizeres uma palavra, no corpo que se move debaixo da tua roupa, no gesto surdo em que te mexes, no olhar cego em que me dizes olhar, no que me falas vou embora e te inclinas para a frente à espera que te chame. Sabes que não te quero aqui e por isso insistes em voltar. O que invejas em mim para me imitar só tu o vês, não conheço essa para quem olhas, vês alguém que não vejo e queres ser esse que não sei quem é. Preferia que te fosses embora, cada vez que olhas para mim, sinto o que sentes por mim, e estamos tão afastados nestes dez centímetros em que nos falamos que parece que nunca nos conhecemos. Ou conhecemos? Tu conheces alguém a quem fizeste adversário sem aviso, para na aniquilação dos dias se transformar em ti, alguém que achas que sou, mas tu és tu não eu. Eu conheço, eu conheço a ti, ou o que queria que fosses, o que achava que eras, no que te inclinavas para mim, no que eu pensava ou sonhava que se abria para mim. Não era, não és, e preferia que te fosses embora, não porque me incomoda o que dizes mas o que não dizes, porque quando me olhas me doí que me olhes, que me odeias ao ponto de teres de fingir que me amas. E não sei se foste tu que te transformas-te, se fui eu que te criei!!...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Perdi-me nos fios do Tempo
Em que as Moiras me fiavam o destino
Por ter cortado as cordas
Que me conduziam nas mesmas voltas
Acordei na hora do orvalho
Na primeira hora do dia
Uma pétala de rosa me trouxe
Um beijo em pensamento triste
Se te dissesse sim saberias que te disse não
Se te dissesse sim seria uma mentira
Te digo agora em vez de um sim um não
Para que a hora do sim não esteja perdida

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Comecei a falar tarde, bem, mas tarde. Não estava zangada com as palavras, compreendia-as e assentia-as em mim, mas não lhes respondia por sons. Respondia no grito do silêncio.
Os meus pais achavam-me graça e o meu pai dizia - Titi vai ali buscar-me os chinelos! E eu ia. - Titi, vai buscar o café do pai! E eu ia. Sem dizer palavra, e ia. 
Porquê Titi, de onde vem o Titi...Não é o meu nome mas eu ia. Ia e achavam graça! Eu não falar mas compreender e ir. 
Ainda sou uma criança calada. Calada. Muitas vezes calada. A calada que vai. Que não fala. E eu tenho tanta coisa para falar. Explicar em movimentos de sons ritmados o que digo quando estou calada. 
Porque eu falo. Oh se falo, tanto que por vezes já nem me posso ouvir e tenho de me calar. Apenas falo cá dentro, em registos inadiáveis. Porque é que não falo lá fora???..... 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De manhã ao frio, quando se sai de casa, a pele gela no rosto, como se uma  mão fria nos tocasse. Abro a boca e o calor do corpo sai em vapor quente mas por ter a boca aberta os dentes também esfriam e ao caminhar roçam na parte interior do lábio inferior. A pele aí é diferente, mais macia, talvez pelo constante contacto com a saliva. Roça, emudece, esfria e por entre os dentes o vapor quente surge. Roça e esfria e sem pensar a língua surge entre o lábio e o dente, quente e frio, mole e duro, seco da pele de fora, molhado da pele de dentro. Caminhas e a oscilação de tudo faz esquecer o frio na língua que se agita....

sábado, 9 de fevereiro de 2013

"As árvores também falam"

Disse para a criança a meu lado.
-Anda comigo. Vamos ajudar uma amiga que está doente.
-Uma amiga? Que amiga?
-Uma amiga dos dois e de toda a gente, embora nem toda a gente seja amiga dela.
-Como é que ela é?
-É grande mas já foi pequenina assim como tu.
-Assim como eu?
-Sim, assim como tu.
-E onde é que ela está?
-Está ali na praça, ao pé do banco onde nos costumamos sentar.
-O que é que ela tem?
-Está doente.
-Mas o que é que ela tem?
-Um caroço nasceu-lhe no tronco que a faz ficar triste e murcha. Nada a anima, temos de ir ajudá-la.
-Sim, eu quero ajudar.
-Então vamos lá, ela está à nossa espera.
-Sim.
-Olha, olha ali ela, no meio da praça.
-Onde? Não vejo nada!!!
-Ali! Mesmo ao pé do banco de jardim, no meio da praça.
-Mas eu só vejo uma árvore grande lá!!!
-Bem...!! É essa a nossa amiga!
-Amiga?
-Sim, ela é nossa amiga.
-E como sabes que está doente?
-Ela disse-me.
-Mas as árvores não falam!!!
-Falam sim, nós é que nem sempre a ouvimos. Gostamos mais de ouvir outras coisas.
-Então e como vamos ajudá-la?
-Fácil! É só preciso tirar este fungo que se agarrou à arvore e depois ela fica bem.
-Oh!! Mas ele é bonito e a arvore já é velha. Não o podemos deixar!
-Nem tudo o que é bonito é bom. Se o deixarmos ficar ele a matará e ela já não poderá mais ser tua amiga.
-Porque é que ela é minha amiga?
-Porque ela dá-te sombra nos dias de calor, oxigénio para respirares...os passarinhos que tu gostas de ouvir cantar fazem ninhos nos braços dela....
-Oh!
-Ela é nossa amiga!
-Se eu a abraçar achas que ela me ouve a dizer obrigado?
-Claro que sim. Vamos abraçá-la os dois.
-E ficamos os três abraçados!!...A ouvir-nos conversar!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"A alma da gente"

A alma da gente que a gente se esquece que tem. A alma da gente que de sorte existe na noite escura resiste e não nos deixa esquecer. Esquecer a noite, esquecer o dia, esquecer sabe-se lá mais o quê que a alma da gente tem. A alma da gente. Sempre a alma da gente que a gente acha que conhece, que acha que apalpa, que acha que está lá. A alma da gente que a gente não conhece e que se por alguma triste sorte a tivéssemos de procurar não saberíamos se era a nossa se a do vizinho. A alma da gente.
Mas o que é a alma da gente se te perguntarem, que lhes dirás que és! Procuras uma lista de adjectivos e significados, daqueles que dizem tudo e ninguém intende e despejas no outro esperando que não te pergunte o porquê e o quê. Porque o que lhe dirias se fosse a verdade, que se quisesses estar em longas delongas lhe dirias que não sabes o que és, que alma é essa que dizes que tens, a alma que a gente tem. 
Toda a gente tem dizem eles, eles que nunca a viram e dizem que tem porque lhes disseram que têm e se calhar até temos mas tu não sabes onde está, como está e como é, o que tu tocas é só o véu que a cobre. E não lhes podes contar sobre o véu, porque esse não é, não existe, o que é está por baixo,  essa é a minha e a tua, essa é a alma da gente, a alma que a gente tem.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Como é que te sentes, Emília?

O tempo parou, parou de rodar e eu parei com ele! Não sei onde estou, que lugar é este que me cerca, que chão é este que calco de pés descalços, que água é esta que corre, que céu é este que me cobre. Não sei nada! Estou parada essa é uma certeza mas certeza de quê se ainda agora vos escrevo. Vocês estão em mim, não posso esquecer, meu arco-íris dourado, meu sol sem fim...Sim, o amor não pára, não deixa de rodar, ainda que eu lance ancoras ao chão e diga alto. Essa inocência na doce imaginação minha em que vos crio, existe, é real e verdadeira, ainda que digam que não, que é fantasia, pura imaginação de artista inventor do nada. Risos, brincadeiras, círculos de festas e música vos embalam, na roda em que vos cerco!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"Era de manhã..."

Era uma vez...

Era uma vez uma rapaz, pobre, descuidado e feio, muito feio. No entanto era simpático, uma pobre alma bela no seu coração puro de sensibilidade ingénua de criança grande que só quer ser amado porque amar ele ama todo o ser que se lhe chega sem pedir nada. As gentes, os animais, a água, o vento, o ser que respira e o inanimado aos olhos pouco treinados que ali não vêm, na árvore, na pedra, na folha que cai a áurea perdida e encontrada do pó das estrelas.
Ele era assim, belo e feio, dependendo do ponto de vista de quem olha. Hoje era feio, e o feio era também gago desde muito pequeno. 
Estava ele a pensar na estação de comboios enquanto esperava pela sua partida, a pensar nos seus e na visita que lhes faria mais logo quando chegasse a casa. A casa que sempre o acolheu e entendeu e o soube amar como era. Estava ele assim distraído quando uma bela mulher com ele se cruzou, e ele não mais dela pode desviar o olhar. Ela tinha caminhado mais uns passos para a frente dele e com os pés já no limite da linha de comboios inclinava o corpo a tentar vislumbrar a silhueta do que estava à espera. Era de manhã, ainda cedo e uma luz ainda ténue a despertar o dia atravessava as telhas partidas do tolde que a cobria, modelando-a numa sombra-luz que a transformava num ser mítico e perfeito. 
E ele assim a olhava mas o olhar não lhe chegava e a ela se aproximou embora a medo, tremendo no corpo e na voz, tornando-se ainda mais gago do que o habitual.
- Me-ni-na. Eu que-ri-a a-ma-la!!
Ela virou-se assustada, não conhecia aquele homem que a abordava! 
- O quê? 
O feio não leu no rosto dela o susto e continuava encantado, perplexo e rendido ao ser que à sua frente estava.
- Me-ni-na. Eu que-ri-a a-ma-la!!
E ela assim o entendeu, levou as mãos ao peito, suspirou fundo e como que quando uma criança nos pede algo e a ela não sabemos recusar, assim fez ela e lhe entregou o que ao peito encostado tinha. A carteira!! 
Ele de carteira nas mãos, triste e lágrimas nos olhos disse. 
- Não me-ni-na, eu que-ria a-ma-la de co-ra-ção e não a-ma-la da car-tei-ra!!
E assim tudo se perdeu porque ela não o entendeu!! O dia se fez noite e tudo adormeceu!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Deixem-me rir, deixem-me rir alto, da loucura que nos invade no momento em que se ri, de gargalhadas sonoras, estridentes, incomodativos, censuradas, reais e verdadeiras. Deixem-me rir do meu próprio riso que me faz esquecer qual o riso primeiro. Deixem-me rir sem memória, sem saber do que rir, rir apenas rir. 
Deixem-me rir, ficar no rir. Não me façam parar nessas curvas , não me façam abrandar nessas linhas, deixem-me rir como se não soubesse o que era e mesmo agora o tenha descoberto, e como prenda aberta deixem-me tomar posse do meu novo brinquedo, desmonta-lo e monta-lo as vezes que quiser mas que seja meu, assim como veio assim quero que fique, com longas e demoradas cerimónias. Deixem-me rir antes que me esqueça...

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Fazer do pensamento lazer, ócio do Tempo e transforma-lo em prazer de ser. Escrever é ter coragem de deixar partir, porque quando escrevo e em seguida olho para o que ficou para trás, faz-me ver que já não sei se fui eu que dei uso à tinta, não que não me reconheça no que está escrito mas porque me olhei no que escrevi e no que disse e já não sou mais quem era, e faz-me pensar se quero ser o que está por diante ou se não será melhor ficar como se está.  Ainda assim a coragem sempre vem e sei que depois deste ponto final tudo vai mudar. Seja...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Cicatriz"

Tenho uma cicatriz na cara. No queixo.  Mesmo a meio do queixo. A linha do corte parece a silhueta de uma montanha, de uma onda do mar, de um caracol de cabelo, de uma raiz de uma árvore,  da curva de uma estrada, do meu sorriso interior inverso quando o de fora não sorri. Não preciso de me olhar ao espelho para saber aonde é que ela está, não preciso rever o meu reverso para relembrar a sua forma. Se tocar ao de leve com os dedos no meu queixo, cedo a descubro, a ela e à sua curva, à sua ruga, à sua idade, à sua história. Se lhe seguir com os dedos a linha da curva a leio como se estivesse às escuras. 
O que aconteceu? Nada de mais, caí, escorreguei e cortei a pele. Tinha dez anos. Nada de mais...Foi o que disse para mim mesma quando ao me levantar do chão senti o frio na cara e o sangue a escorrer ensopando as minhas mãos que apalpavam para saber o que é que se passava, o porquê da carne estar tão flácida...Mas a seguir, a seguir a que me levantei e levantei também o rosto e vi a expressão dos outros a olharem para mim, as toalhas que foram chegando e partindo manchadas de sangue, trouxeram em mim o espanto e a frieza da incredulidade de que me tinha magoado. 
Magoei-me e incomoda-me que cada vez que sorrio a cicatriz se mostre maior, que cada vez que me mostre triste a cicatriz revele a sua gorda ruga. Quase e digo quase que consegue passar despercebida se me olharem de cima para baixo mas não se me olharem debaixo para cima. 
Uma cicatriz! E que importância terá isso! Um corte na pele! 
Nenhuma se estivermos a falar de pele! 
Toda se estivermos a falar debaixo dela, dela, da cicatriz! 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

E se te dissesse que sempre soube o que era e que sabia o que era e mesmo assim disse que não ao que queria, ao que cá de dentro falava e ouvia o que dizia mas que não queria? E se te dissesse que escolhi não ouvir o que dizia essa voz, que me queria só no que era e ainda assim dizendo que não, fiquei só? E se te dissesse que mesmo dizendo o que digo não te estou a dizer nada? Porque ouves e calas e não me entendes! 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"A figura"

Então e aqui estou eu, esta policromática figura que não consegue ser una, que passa da figura dormente e assente na planura de um vale para a ferocidade dos ventos no cimo de uma montanha acometida por uma tempestade sem hora de acabar. Extremos opostos numa figura só. Talvez por isso e talvez não me engane seja assim una e não dupla no outro sentido da palavra que também pode ser dupla. Leve como o ar, sem cor ou pecado se torna na cor carmim do mesmo engano, vozes doces, calmas de monstros adormecidos que ao acordar emergem num sem sentido de todo sentido, nascida do macho e fêmea é assim que sou, suave e perdida por esse rio acima. Louca ou meio louca de sanidade satisfatória de cidadã cumpridora dos deveres civis sem disfarce, mistura-se na miscelânea do que é e que não consegue compreender como viaja em extremos em segundos. Como ninguém se reconhece em duas línguas, também não me reconheço em mim própria. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Ele sorria de orelha a orelha"

Lembro-me quando ele veio para casa, era pequeno, muito pequeno, cabia inteiro nas minhas mãos e tinha umas orelhas engraçadas, eram enormes, quase que tropeçava nelas se eu não estivesse a exagerar só um bocadinho. Esteve connosco dezasseis anos, uma vida que para ele deve ter sido muito maior do que a que podíamos ver do lado de cá. Veio para fazer companhia à minha mãe e foi a minha mãe que passou a fazer-lhe companhia. Era muito bonito quando era pequeno e a pele era de uma suavidade imensa. Nas brincadeiras próprias da idade estragava sem querer tudo o que lhe aparecia pela frente, brinquedos e mais foram sendo trazidos ou dados pelos amigos e vizinhos para que o pequeno se sentisse feliz. Quando sorria, sorria de orelha a orelha, os olhos ficavam vidrados, abanava a cabeça e espirrava, quão engraçado era, batia com as mãos e os pés no chão como se estivesse a dançar o samba, como se ele soubesse o que isso era mas para nós parecia e ria-mos junto com ele. Quando ficou maior e a chamada adolescência chegou, ficou musculoso  os braços e as pernas eram fortes e não fazia mais nada do que correr, queria era liberdade, qual quê estar preso, queria era rua. Foi quando descobrimos que era meio surdo, e não tinha qualquer tipo de sentido de orientação. Perdia-se pelos campos e fazia a família inteira andar à sua procura, a chamar e chamar por ele mas ele nada, ele não ouvia e quando finalmente o encontrávamos parecia envergonhado mas a gente sabia que era tudo fita para inglês ver, na próxima oportunidade ele voltaria a fugir. Quis ter namoradas mas só gostou de uma e essa não o quis, estava apaixonada por outro, não sei sequer se algum dia deixou de ser virgem. Pobre rapaz! Viveu a vida como quis, não valeram de nada as reprimendas nem os avisos para se portar bem. Comeu e bebeu bem, sorriu e viveu feliz! Um dia quando era Verão e eu estava de férias fora de casa a minha mãe telefonou-me quase a chorar, a dizer-me que ele tinha tido uma espécie de AVC se assim se pode chamar, que ficara como que dormente do lado direito e parecia que tinha ficado cego. Estava a morrer e era óbvio que não havia nada a fazer. Disse para mim mesma que era uma coisa natural, afinal já vivera até mais do que o era suposto viver mas doeu-me, doeu-me a sério, era uma parte de todos nós que iria partir, tantas histórias vividas, páginas partilhadas e todas elas iriam desaparecer como lágrimas à chuva. No dia seguinte a minha mãe voltou a telefonar-me. O inivitável tinha acontecido, já era tarde, ela chorou e eu também. Chamava-se Bobi e era o nosso cão, o nosso amigo fiel e meio louco, o nosso Bobi. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Linhas, curvas, textura, animal, cérebro, cerca, serra, certa, correta, corrente, presente, tigres, gatos, olhos, agua, rio, mar, barco, linhas, curvas, textura, animal.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Aprender a andar de bicicleta!"

Um dia, quis aprender a andar de bicicleta, todas a minha amigas já sabiam e até tinham bicicletas novas e faziam acrobacias de rua com elas. Outros tempos, quando não existiam jogos em casa, dentro de casa, nos quartos à porta fechada. Nesse tempo, no tempo em que eu quis aprender a andar de bicicleta, os miúdos andavam na rua e queriam-nos na rua que dentro de casa só atrapalhavam. 
Então um dia, um dia quis aprender a andar de bicicleta. Não tinha uma bicicleta nova, a que eu tinha era do meu avô, era enorme, já grande para o meu avô, maior para mim nos meus nove ou dez anos. Não chegava sequer ao selim para me sentar mas queria aprender e por causa dessa minha vontade fui ter com a minha mãe para me ensinar...Ela não podia, estava muito ocupada e além disso também ela tinha aprendido a andar sozinha, por isso eu que fizesse o mesmo. Pedi-lhe por favor anda lá, é só um bocadinho de tempo. Não posso vai lá tu sozinha! E eu fui, sem resmungar, sem falar mais nada, sem pedir mais nada, sem mais nada, fui. Fui para um caminho de areia eu e a bicicleta do meu avô, sozinha. A areia escorrega, sei isso agora mas antes não sabia: Não caí nenhuma vez, desequilibrei-me, sim, muitas mas não caí. E aprendi a andar de bicicleta, na bicicleta do meu avô. Estava contente, muito contente, aprendi sozinha como a minha mãe e fui-lhe dizer, contar a novidade. Mas ela ainda estava demasiado ocupada para me vir ver e apenas me disse que sabia que eu era capaz. Eu fui capaz mãe! E fui-me embora, sozinha, com a bicicleta do meu avô, procurar os melhores caminhos para a minha, também agora, bicicleta.  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Não existe nada, só cansaço e não o cansaço da palavra, o cansaço é outro, é o peso de ombro a ombro, o corpo descaído, acoplado ao que se encosta, sem querer de se mexer, porque é nisso que reside o cansaço no não querer. E para quê querer? - Diz o cansado.  Estendido numa cadeira, sem posição de estar, e ainda assim ficar, a mão descaída em cima do nada, as pernas esticadas ao encontro do chão na procura do andar, a cabeça inclinada para trás, mirando um tecto opaco, sem visibilidade. E é nesse cansaço que me encontro, no não querer nada, não quero fazer nada, começar ou terminar nada. Ser nada é isso que quero, ser uma página em branco onde se escreve sem o vicio do antecessor, sentir só e apenas o que é e que existe no que se sente e não ser nada. Se não for nada posso ser tudo, se não for nada posso ir onde quiser, estar onde quiser, caminhar em todos os terrenos e espaços que circundam o meu quarto, a minha rua, o largo da minha aldeia. Nesse mundo que é dos outros mas também é meu. Olhar as estrelas como se fosse sempre a primeira vez, sem saber que são estrelas mas as amar como estrelas. Viver nos olhos dos bichos as vidas que vivem sem falar e conversar tanto como eles. Sentir a chuva que nasce da terra e cresce dos céus, quente ou fria como se quisesse ser ela, sendo ela, sentido-a a ela. A ela, toda ela que no sentir existe mais do que palavras ou vozes mas caminhos a percorrer sem nunca se atingir o horizonte, o limite ao que os olhos vêm. Limites? Será que existem mesmo limites por não vermos o que está para além do que vemos!. Quero então ser cega e não ver, quero ser surda e muda, passar adiante do que existe mas não ser nada e apenas sentir. Viver no sentir! 

sábado, 22 de setembro de 2012

"Vi-a hoje"

Vi-a hoje, parecia calma e serena. Mas depois, depois a outra entrou e passou à frente de tudo e de todos como se a casa fosse dela e nós todos que ali estávamos dentro, não existíssemos. Olhei para ela, para a outra, estava com pressa e a pressa dela estava no rosto, na maquilhagem, na roupa, nos cabelos. Disse que se tinha esquecido de lá ir no dia anterior, e eu tive de saber que já ontem ela estava para vir, e não me interessava saber, hoje é hoje e ontem foi ontem, hoje as nuvens cruzaram-se ao norte e ontem não importa. E ela, ela que estava calma não disse uma palavra, mas o rosto se escureceu e pareceu-me que até a cor do cabelo naquele momento se tingiu de uma cor mais escura à medida que o meu olhar se lhe escorria pelo pescoço a baixo, as sobrancelhas arquearam, a boca minguou, o brilho do rosto se quebrou. E ela, ela que estava serena respondeu em voz ponderada e calma com o coração ao saltos e na garganta um grito, se era o que tinha nas mãos o que procurava, e então passe bem, tenha um bom resto de dia, obrigada. Olhou tão pouco tempo no rosto da outra, mas a outra também não se importou, levou o que ela tinha nas mãos e não lhe disse mais nada, nem um adeus, obrigada. E eu e os outros não a vimos sair e ficámos a olhar para ela que vi hoje. Para ela, que parecia calma e serena. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"Pequenos fetos, muitos afectos."

Era uma vez...
Uma menina pequenina, que não cresceu e se ficou assim pequenina, sempre quieta, em silêncio, num silêncio ensurdecedor, de vozes de ventos que cortam, ventos que apenas sopram, sol que queima e sol que deita, águas que afogam mas também onde nelas se deita e se deixa abraçar e levar pela corrente, essas correntes mansas onde só vemos o azul do céu e não a fundura dos abismos escondidas nas águas. Essa menina pequenina viu tantas coisas por onde passou, por tudo aquilo com que se cruzou e imaginou. Tantas coisas que contadas não valeriam de nada porque são seriam nem metade do que deveras é. Momentos e vidas que com ela cruzaram e a feriram não de morte mas de marca própria, como tatuagem que se gosta, escondida num sitio qualquer ou à vista para toda a gente ver. Pequenos fetos, muitos afectos e é nisso que se fica quando não se cresce. Nos afectos. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A vida real é mais do que os quadradinhos que desenharam para nós.