(Este blog é totalmente dedicado a Laura e Lara, para quem todas as mensagens que aqui posto, me dirijo. Sem dizer adeus.)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Memórias



Estava sentada nas pedras a tirar fotos ao mar quando este senhor veio "inspeccionar" o que eu estava a fazer. Sorrimos um para o outro e desliguei a máquina para não ser mais incomodada. Ele desistiu do que eu estava a fazer e colocou-se a admirar o mar. Então decidi ser eu a "ver" o que ele estava a "ver" e tirei-lhe uma foto. Escusado será dizer que assim que ouviu a máquina a disparar virou-se para trás e desistiu de me importunar. 

Este é um dos motivos porque gosto de fotografia. Gosto de "roubar" tempo ao tempo em que a memória do espaço passa a ser  minha também.

domingo, 12 de junho de 2011

Ponto de retorno


Na década de 1940 uma certa relutância em modernizar a Ford Motor Company quase a destruiu. Mas quando Henry Ford II voltou da guerra e dos seus deveres militares para a administrar, a situação inverteu-se e a Ford tornou-se numa das maiores empresas do mundo.
Ocasionalmente precisamos de um retorno. Precisamos corrigir os rumos errados ou compensar decisões incorrectas para que seja possível voltar à condição anterior.
Não é fácil, é um esforço diário na esperança de que ao mudar se está a alterar o futuro para melhor. Claro que nem sempre o caminho é uma linha recta, nem os objectivos a que nos propomos são os que alcançamos. Só pudemos saber se tentarmos, e olharmos para o futuro com o passado como alicerce.
Afinal, não é só com o final de uma história que se aprende mas também com a sua narrativa ao longo das páginas da  vida. 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Verdadeiro

Hoje o meu sobrinho, e depois de muita brincadeira, resolveu fugir fechando atrás dele a porta para que ninguém o seguisse. Fui atrás, puxei-o por um braço, agarrei no martelo de plástico dos santos populares que tinha na mão e bati com ele no rabo por cima da fralda.
- Não voltes a fazer isso. Senão eu volto a bater-te com o martelo no cu.
Ele olha para mim e aponta com o dedo para o rabo.
-Cu, Titi, cu.
-Sim no cu, eu bato-te no cu.
Resolvo abandonar esta discussão e dou meia volta para me ir embora, quando vejo o meu sobrinho a correr atrás de mim. Agarra-me no braço com o martelo, vira-me o rabo e diz.
- Cu, Titi, cu.
Afinal o que ele queria era que eu lhe voltasse a bater. Não percebeu que estava a repreende-lo. Não viu a maldade no meu gesto. Para ele era tudo uma brincadeira. Vi maldade no seu gesto e repreendi-o com maldade e ele viu inocência no meu e retribuiu com a mesma.
- Cu, Titi, Cu.
Desta vez reparo que está a sorrir, como sempre esteve.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Bin Laden

Cada um de nós olha para a vida deste homem e abana a cabeça negativamente. Por causa das suas crenças, da sua maneira de ver a humanidade e da loucura em querer transformá-la através da violência, o mundo hoje é diferente desde 11 de Setembro de 2001.
Lembro-me de ver em directo a notícia de que um avião havia atingido uma das torres gémeas e passado 20 minutos vi o segundo avião atingir a segunda torre. A confirmação de atentado veio nesse segundo, em que também eu abanei a cabeça em forma de protesto por esse acto ignóbil. Mas ele estava alegre e celebrava a morte.
Deveríamos abanar, no entanto, também a cabeça afirmativamente. Porque se um ser humano é capaz de tal acção, nada impede que cada um de nós o faça. O coração do Homem tem angustias, vitorias, percas, altruísmo, ódios, rancor, esperança…Nascemos todos iguais, somos parte de um só, feitos com o mesmo direito ao livre arbítrio.
Bin Laden está morto.
A humanidade se rejubila, vejo novamente pessoas na rua, que antes abanavam a cabeça em desaprovo, a celebrar com alegria a morte.
O que nos faz afinal assim tão diferentes?

sábado, 14 de maio de 2011

Mais um dia

O tempo anestesiado pela orgia
Da saudade me amofina  
Um segundo é um dia
Um dia é ruína

Chove e sabe bem, embalar-me.
Está frio, demasiado para o meu querer
As lágrimas das nuvens abraçam-me.
Vão-me proteger.

Preciso desse perdão
Não consigo, não posso e não quero esquecer.
Vou sonhar com o coração.
Até não mais poder.

Me lembrar
do que a minha alma desejar
para mais um dia em que vou acordar
e continuar a amar

quinta-feira, 28 de abril de 2011



"Às vezes os pensamentos melancólicos trazem consigo algum prazer também, um prazer suave, íntimo, consolador"   Júlio Dinis

Pó das estrelas

Estivemos todos juntos no inicio, nessa grande imensidão do espaço. Átomos, carbono, nitrogénio e oxigénio, temos a mesma massa que as estrelas. Mas esse início também teve um fim. Quando morrem, as estrelas massivas chamadas supernovas explodem expelindo todo o seu material para o espaço interestelar para que possam fazer parte de outras estrelas, planetas e pessoas. Todo o carbono que contém matéria orgânica foi produzido originalmente nas estrelas. 

Passaram três anos desde que partiram e parece que foi hoje de manhã. Por vezes penso que tudo é um mau filme em que posso a qualquer momento agarrar no comando e voltar ao momento em que mesmo sabendo que não poderia alterar em nada o curso da história, mas que talvez, talvez, e olhando agora para trás, talvez pudesse pelo menos tentar.

“Tu és pó, e em pó te hás-de tornar”. Um dia os nossos corpos voltarão ao seu estado primitivo, os átomos voltarão a se reorganizar em novas formas e talvez nesse dia sejamos; areia do mar, arvores cujos ramos se tocam, duas pessoas que atravessam o mesmo passeio, companheiros de viagem, amigos que se abraçam, e outra vez, pó das estrelas.

Sem dizer adeus, Laura e Lara, ainda vos amo.

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”
Lavoisier

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ilusões

Apetece-me chorar mas esta tremenda raiva que me corta a garganta como uma faca, não me deixa. Não consigo permitir-me a desistir, a sufocar nessa tristeza dúbia que não te ajuda mas te afunda. Sinto que lutei na grande batalha, desferi todos os golpes no meu adversário mas fui eu que perdi. E o porquê vem a seguir, vem sempre. Aliás é o único que resta. A divina interrogação.
Iludo-me a mim mesma ao sorrir nessa vitoria que não ganhei, que não me trouxe o troféu final, cujo qual já nem sei qual era.
Estou cansada desta inércia, da morfina que me atordoa os sentidos. Olho para o relógio e penso mais um minuto e vou, mais um minuto e faço. Ilusões perdidas nos sonhos. 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Como não acreditar em Ti

Como não acreditar em Ti.
Como não acreditar naquele amor que não vi.
Que não cheirei o pescoço,
não toquei o rosto,
não ouvi as gargalhadas,
não saboreei o amargo das lágrimas,
que não as minhas.
Como não acreditar em Ti.
Se esse amor tenho sentido,
como se não tivesse partido.
A dor de alguém que sempre foi meu
sem nunca o ter sido.
O amor que perdi
levando uma parte do meu.
Como não acreditar em Ti.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma Significação para a Vida



Como é que o homem vai viver sem uma significação para a vida? Donde essa significação? Os sucedâneos dos deuses atropelam-se tumultuosos, mas duram menos que os deuses, duram menos que um homem. Imaginei um dia que o homem viria a aceitar a sua condição em plenitude. Só não imagino esse homem. Porque imaginando-o como me é possível, penso que admitirá uma transcendência inominável, uma dimensão que supere o imediato da vida. Só que o pensá-lo não me afecta o sentir. Tenho o enigma mas não a chave que o desvende. Sei a interrogação, mas não posso convertê-la na pergunta a que se dá uma resposta. Da integração do homem no mistério do universo o que me fica é a vertigem. Mas aguento-me aí sem me retirar do abismo nem cair nele. O curioso é que são os «racionalistas» quem menos se perturba com a sem-razão de tudo isto. Porque eles é que deviam saber, mais do que os outros, o porquê e o para quê. Não querem. O mundo existe-lhes assim mesmo, sem significação. Para mim me existe também. Mas isso aturde-me. A velhice que se anuncia, anuncia-me a aceitação e a serenidade. Mas não me anuncia a liquidação do problema. Respiro mais calmo diante do irritante mistério. Mas estar calmo não é anular o que me intriga, ou o seu terror: é só anular-lhe o efeito sobre nós. Os imbecis ou os inocentes é que os ignoram. A expressão final do homem de hoje é o heroísmo. Porque tudo tende a esmagá-lo de todo o lado. Mas ser herói é ser consciente. E aguentar, com um mínimo de pulsações por minuto. Referi-me um dia a um indivíduo condenado à guilhotina e a quem um amigo dizia: «fatiga o teu medo». Não fatiguei ainda a minha inquietação. Mas fatigá-la é só o que tenho para a anular.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O tempo

O tempo em que corro atrás do tempo, vazio, esquecido, do resto do tempo. Ouço o respirar, que me faz de espectador na corrida do tempo. Preguiçoso leva-te por milénios em segundos, aguardando a bandeira no arco da vitória.
Uma vida aguarda por esse tempo, que guarda do tempo que tudo esquece, a saudade do calor da vida. Um segundo, no limiar do penhasco onde se despenhará o tempo que há-de vir, seguro a minha alma no fio da foice que levará esse tempo para sempre. 

Saudades

Saudades da explosão de raiva, em que a voz se elevava até doer, até sentir as veias do meu cérebro dilatarem, não deixando espaço para mais nada do que a razão.
Saudades do coração voar do meu peito junto com as palavras, eliminado o bom senso. Da adrenalina a percorrer o corpo exausto e esfomeado de mais luta.
Saudade do medo, que me fazia sentir viva. Do mundo ingénuo, guerreiro, companheiro, vivo, perfeito, dos meus desenhos de escola.
Já não sinto a violência desta guerra. As marcas no meu corpo já não têm história, independência, memória.
Resta-me alimentar este mar de sal, em que navegam jovens marinheiros ansiosos por novos mundos. 

domingo, 1 de agosto de 2010

Opinião!

Somos mesmo nós que definimos as nossas próprias decisões? Somos livres de o fazer? Onde está a fronteira? Estamos vazios da opinião e influência do exterior? Algo vazio sabe escolher? Escolhemos quem nos faz a melhor oferta, sem pensar ou analisar? O que é ser? Sou eu um ser? Ser é um adulto? As crianças não são ser? Eu não quero ser. Eu sei o que quero? Porquê a guerra contra o muro que eu construi? Porquê é que eu sou o vilão? Olho para o espelho e apenas vejo o meu reflexo. Não eu, mas a versão negativa do eu. Deveria amar o que tenho para dar e não o meu potencial...
Não chega? Não. Quero ver quem és. Até onde vão as tuas correntes. 

domingo, 13 de junho de 2010

sonho

Agora perdi.
Agora vi.
Agora estou.
Agora sou.
Sou o ser que vê partir.
Não se mexe, para não chamar.
Para não ser visto. Para não existir.
Que espera por agora.
Que tem esperança no agora.
Que deseja o agora.
Que ouve o agora, no eco do agora.
E agora? Agora? Gora? Agora? Gora? Ora?
Só.
Agora eu sinto.
Agora eu rendo.
Agora eu deito.
Agora eu sonho.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Humano

             Humano mentiroso, fingidor, incoerente.
            Não consegue ser verdadeiro consigo mesmo. Perde a sua centelha mesmo antes de saber da sua existência. Atirado para o caos do mundo, faz tudo para se manter à tona. A personalidade é alterada, tal como a visão que se tem dela. Muda-se o  ponto de vista, conforme  é mais favorável. No final do dia, quem sou eu. Sou esta construção do Eu, ou a essência perdida? Cada situação é um cenário novo, onde cada um coloca em exposição as suas melhores armas. Sorrisos, vontades, fingimentos, aceitação, inverdades. E no final do dia, sinto outra vez a nostalgia de ter perdido outra vez.
            Crescer é difícil, deixar uma parte de nós para trás ainda mais.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O mar

A beleza do mar encontra o seu auge, em pleno inverno. Toda a sua violência, negrume e medo, inspiram-me confiança. Paro frente a ele, e espero, por toda a sua fúria. Vejo e analiso. Aguento toda a sua carga e sofro no meu corpo a sua ira.
            Sinto como se fossemos dois amigos, mas de lados opostos, cada um desafiando o outro, à espera, para ver qual é o primeiro a ceder. Cada um testa os limites do outro, vigiando até onde se esticará a fronteira entre o amor e o ódio.
            Espero pela tempestade, espero que inflijas em mim toda a tua cólera. Escolhemo-nos. Podes confiar. Estarei à tua espera. Sou a tua melhor amiga, e sei que não vou encontrar melhor amigo, que tu. Somos feitos, da mesma massa. Dor e resistência. Lágrimas e esperança.
            Aguardo no lugar onde morres, beijando os meus pés, qual de nós dará o primeiro passo e aniquilará o outro. Na fronteira do esquecimento.