Palavras da noite luzidia que se prendem sem eu querer ao que falta dizer. Palavras nos dedos de quem toca piano que fala sem o dizer. Palavras compridas de sons, num texto ainda agora escrito, quente que te queima no sentimento ainda presente! Palavras que não ouves nem ouvirás que são palavras do que não queres ouvir, que são palavras que já sabes que são antes de o dizer. Olha no espelho e chora, que palavra lhe dirás ao que do lado de lá está não estando sendo tu que não és. És reflexo e até para o teu próprio te faltam a base das palavras, a forma, o principio do que sentes. Procuras, vasculhas em tudo o que tens e vês mas não te chega. A palavra é maior que a palavra, é o som em toda a gente crê, é o sentido em que toda a gente sabe que deve ir mas poucos o seguem! A palavra da noite é dia e de dia é noite, é toda a que se quer guardada no local a que se chama sentimento!
(Este blog é totalmente dedicado a Laura e Lara, para quem todas as mensagens que aqui posto, me dirijo. Sem dizer adeus.)
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
terça-feira, 5 de novembro de 2013
"Chapéu-da-chuva"
Tenho um chapéu que me guarda da chuva, que não uso.
É vermelho, cor de fogo, que guardo arrumado e fechado!
Prefiro a chuva que me molha, me entranha na carne e me enche até há alma. Prefiro o vento que arrasta os cabelos para fora do lugar certo, de se estar bem e correcto, que os mantém além do estado escrito, do desenho pintado dentro das formas alinhadas. Amo as folhas fora do sítio, inundando as estradas de cobertores estranhos ao que aos olhos no parecem, ao olhos dos que apenas conseguem olhar ao que está em frente e não conhecem o doce prazer de as poder calcar de pés descalços, de se dar a poder e deitar sobre elas, como na cama de onde ainda hoje te levantaste, de onde ainda hoje não querias sair.
Dizem que a chuva arrefece e esfria, a mim me aquece, como fogo ardente e vivo, me queima por dentro. E é de dentro que sai o que sou, não é de fora o que me molha e me faz correr, e cercar-me de afectos, que ao corpo se pede. É o de dentro que acolhe a chuva, a faz correr nos rios do sangue que me faz viver a vida, a toda a água que viaja por terras e mares, e volta para mim, toda a história do que se disse e não disse, do que se criou ou não. Está no meu coração, trazendo-me a casa, fazendo-me forte.
Hoje é o dia antes de tu vires e alguma coisa cá dentro me faz ter saudades, de ainda não estares cá, onde estou, aqui, sem chapéu que me guarde, sem chapéu que me esconda, dela que quer em mim entrar e saber mim e eu dela saber, estar dentro da minha pele, saber o que sei, viver o que vivo, sentir o que sinto.
Tenho um chapéu-da-chuva, vermelho, guardado, que não uso!
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
"A vida"
A vida parece tão irreal, tão fora de contexto, como esta cadeira em que me sento. As cadeiras têm este jeito de nos prender ao chão, mas no fundo, no fundo, toda a gente sabe que a culpa não é da cadeira, é de quem nela se senta.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
"O meu lugar"
O meu lugar é aquele que me faz ter, é aquele que nunca vi mas que sempre o desejei ter. Desenho-o desde cedo, sempre com as mesmas formas, sempre com o mesmo querer. A preto e branco, de onde as cores não se vêem, mas com a mesma certeza brilham se assim quiser que sejam as cores com que sempre sonhei.
O meu lugar é aquele onde nunca estive com os meu pés, mas aquele onde sempre foi antes de o ter sido. Tem uma árvore grande que circunda o rio que corre para o mar. Uma árvore forte, robusta, pronta para apoio de alguém que ali queira repousar. Ao fundo as montanhas são altas, sem neve, apenas o verde das ervas molhadas que cheiram a terra e mar. O sol brilha à tarde, tingido de vermelho puro.
O meu lugar é aquele onde nunca estive com os meu pés, mas aquele onde sempre foi antes de o ter sido. Tem uma árvore grande que circunda o rio que corre para o mar. Uma árvore forte, robusta, pronta para apoio de alguém que ali queira repousar. Ao fundo as montanhas são altas, sem neve, apenas o verde das ervas molhadas que cheiram a terra e mar. O sol brilha à tarde, tingido de vermelho puro.
Tenho saudades desse lugar onde sempre que o desenho estou, sem a mim me fazer lá. Uma imagem que permanece a não existir, sendo real. Sem nunca lá ter estado estou.
Sinto-me lá, sob a árvore robusta, de onde as folhas caiem empurradas pelo vento. As flores que no chão se agitam, voltando ao mesmo lugar. Sento-me no chão duro e seco e o olhar move-se com vontade própria pela paisagem nua e minha. Imagens roubadas ao meu coração, que assim a querer, dei também!
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
"Ponto final!
Podes estar em dois lugares, enquanto escutas e pintas, quando desenhas e falas, quando acordas e ainda estás a sonhar, mas escrever, para escrever é preciso estar lá e não sair de lá. Focado à espera, na espera que elas venham, as palavras. Podes ir, ao caminho mas só lá chegas a meio, elas é que vêm ter contigo e só uma vez! No contexto, na forma, no sentido e sentir com que se sente, é só uma vez. A seguir é vêm outras, porque o sentir é diferente, mais ou menos, ou mesmo igual, não sabes dizer como disseste. O que vês é ao lado e não em frente. Se te quiseres ver como eras tens de te copiar, e à copia sais do sítio, um risco ao lado, não é igual, a impressão é outra, já passou é outra. Por isso nunca acaba e te reescreves sempre que terminas um ponto final.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A loucura veio a mim num riso, um dia. Era dia, era noite, era eu sem o saber. Ouvi o eco da voz e dela saiu um outro que não conhecia, não sabia que existia. Mas era e vivia em mim , como alguém que se esconde para não magoar. Não existia certo ou errado, era o agora ou nunca na estrada em que me encontrava. Era a adrenalina, o ópio, a doce morfina que me arrebata a alma, que o corpo já não existe...
"Um segredo"
Um segredo, profundo em mim, me segue numa estrada sem que me cruze ou retenha a ser o que sou, o que me faz viajar. Não gosto, não o detesto, apenas existe. Existe como pele à minha superfície e sem ser é, e é assim porque quero que seja. Há pele que dele também existe, há pele que dele em mim persiste, em me fazer o que sou. Um sonho real, que existe e vive em mim. Não consigo, não posso dizer adeus, não sou eu que manda é a minha carne que o diz. Me lembra agora. Está lá na ausência dita, na memória escondida, no que não se lembra por sempre ser, sempre estar. Sem saber veio, a saber está. Ficás-te nesta parte invisível de mim, que sem se ver, vê-se. Sou, penso e estás...
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
"Luzes da noite"
As vezes à noite, de noite ou no escuro da noite é quase como se fosse noite e nem é preciso fechar os olhos para o ser, basta acreditar e ser se assim se quiser! O escuro envolve-nos mas sem medo...não é medo que se tem é fascinação, prazer, cumplicidade! Como quando se nasce sem ver e as pequenas luzes, os brilhos que nos chega e nos hipnotizam, tornassem o mundo só disso e não houvesse nada além disso.....
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Dor é a roda em que brincava, roda de onde caí, roda de onde vi meu pai gritar, roda de onde me me veio para acudir. Dor é não saber porque perdi o equilíbrio, porque a roda passou por cima do meu pé e não senti nenhuma dor. Lembro-me de meu pai, do meu pé no chão, da certeza da roda pesada por cima dele, da dor existir sem ali estar porque alguém, quem foi não sei, alguém me puxou para fora estando ainda ali, e a dor ficou no tempo e não em mim. Quem me poupou à dor não sei, para quê não sei, mas lembro-me do meu pai a gritar, de apalpar o meu pé, de dizer desculpa, não aconteceu nada, está tudo bem...
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Verde-água
Azul-marinho
Essas são as cores
Do meu menino
Corre pela praia
Movendo a areia
Corre com a alegria
De quem só quer sonhar
E é tão bonito
De cabelos ao vento
Braços no balanço
E riso no ar
Não cresças
Não quero que conheças
A morte das flores
Do nosso jardim
Corre, corre, foge, vai
Sem dizer adeus
A quem te quer bem!...
Azul-marinho
Essas são as cores
Do meu menino
Corre pela praia
Movendo a areia
Corre com a alegria
De quem só quer sonhar
E é tão bonito
De cabelos ao vento
Braços no balanço
E riso no ar
Não cresças
Não quero que conheças
A morte das flores
Do nosso jardim
Corre, corre, foge, vai
Sem dizer adeus
A quem te quer bem!...
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Desculpa, quero-te pedir perdão. Daquilo que dizes que tenho e deveria fazer com ele. Não tenho tempo, tenho pressa, o tempo acaba depressa. Mas tu fazes-me esperar e esperar numa caminhada que me parece demasiado longa para fazer só. Teria sido mais fácil mostrares-me o que queria, aí saberia quem sou porque mo terias dito. Não sei se teria acreditado, para acreditar é preciso uma certa dose de fé e a fé às vezes vai-se-me como areia escorregadia que atravessa os dedos das mãos. Nunca fica nada nas mãos, no corpo talvez mas nas mãos não.
Devias estar só quando nos fizeste a nós, estamos sempre. Querias um reflexo teu uma coisa que chamasses tua, mas deixaste-nos escolher, mesmo tendo dado o que nos deste, porque temos algo, um pedaço de ti, todos nós. E deixas-nos escolher...Largar, deixar livre não é fácil. Se se cria deveria ser nosso, mas que mais pode ser nosso senão o que deixa livre.
Nunca verei o teu rosto mas talvez me deixes um dia ver-te a trabalhar no teu jardim.
As pessoas dizem que não se deve questionar a Deus, mas eu, eu só quero conversar contigo....
As pessoas dizem que não se deve questionar a Deus, mas eu, eu só quero conversar contigo....
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
O vento hoje está diferente, tem sabor a mel e fel. Talvez seja por estar cansada e este vento quente me traz uma certa certeza das rodas do carro que nos conduzem. Às vezes sabe-se para onde se vai e não sei se é mais triste saber se a completa certeza de que realmente aconteceu. As coisas são simples o difícil é quando complicamos e as linhas que nos pareciam rectas se transformam em curvas anunciadas de um escuro que não se sabe e não se conhece. Quantas vezes se sai de lá para lá voltar a cair, sem ter visto nada de nada, certo ou errado.
Inventamos sempre umas certas regras, dá-nos algum conforto não ter de fazer perguntas para não ter que receber respostas. É que a resposta pode bem ser aquela que queremos ouvir. Mas e depois, depois, o que fazemos com tudo o que pedimos e nos foi dado. Preparamos-nos para que os outros sejam o que queremos que sejam em nós, mas não nos preparamos para sermos nós em eles.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O limite da realidade a que nos acostuma-mos é a face do sonho. Uma passagem, uma vista, um sentido certo do que no certo te vês. Ilusões perdidas, que sem estarem as encontras, nessa miscelânea do que é teu ou dado como teu.
Respira fundo, atenta ao que encontras, projecta na tua mão, nas tuas mãos, quantas tiveres e crê, por mim, acredita. Sabes o que quer dizer, sabes....é um mundo, um novo mundo. Céus livres, livres, uma nova manhã, um novo nascer. Tocar no incerto, da realidade tomada como certa, imaginar no lugar comum ao que se diz, ao que dizemos sem dizer. Viver na abstracta forma do ser que cobre como uma neblina fugidia a vista de quem sempre sonha...
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
"O melhor dos vinhos"
Existem dois tipos que vinho que são considerados os melhores!
Um deles é o sobrevivente, cria-se em qualquer terra, adapta-se ao clima, das raízes mortas nascem novas bases para as mesmas plantas, mesmo corroída pelos insectos e as pestes o fruto vinga, saboroso como se estivesse nascido nas planícies do Éden. Luta e sobrevive a tudo e todos. Podemos usar a sua cepa e confiar nela porque jamais nos irá falhar. Nasceu para nos dar o fruto, foi criada para isso e é isso que irá dar. Não se deixa conquistar ou derrotar pelas intempéries da vida e lhe ganha sempre. Dar-nos-á sempre a provar bom e excelente vinho!
O outro, só se cria em determinados espaços, em certos lugares, em certas ocasiões. Se o clima muda a cepa morre, se a temperatura não é adequada ela morre. A terra tem de ser a certa, a correcta, no ponto por ela exigido! É delicada, não se cria todos os anos, só nos que ela escolhe e lhe parece bem. Precisa de cuidados extremos, diários, como se uma flor que se carrega nas mãos com medo que se quebre...Mas se tivermos toda essa paciência, todos esses cuidados, todas essas exigências, ela nos dará a degustar o melhor dos vinhos que alguma vez provámos.
Qual é o teu vinho?!!
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Somos simetria e simetria existia, era perfeita e complexa. Quando somos pequenos tudo é certo e correcto mas o corpo cresce e se separa, torna-se desigual e separado nas suas duas partes que antes eram e também agora são mas em pesos e formas diferentes. Ainda o reconheces a ele e à sua parte no que se quer dizer e chamar mas são diferentes. Diferem na idade e da doença, diferem na rigidez e na placidez.
Olhas-te no espelho e perguntas quem és, o esquerdo ou o direito e se fores direito o aceitas como sendo esse ou queres antes o esquerdo. O que aceitares é esse que te rege, ao qual rezas e pedes para não perderes, para que te deixe viver mais um pouco. Sou mais do que a carne, sou tudo menos carne e a carne me cobre e não posso viver sem ela. Quis tantas vezes que este cobertor não me tapasse para que se visse apenas eu, apenas o que sou, quem sou, mas como raiz que me agarra há terra não me larga e me torna humilde da perda, da mortalidade, no sentido do agora, do presente sentido, respirado como eterno. A minha fraqueza faz-me forte, não porque me faça viver mais mas porque me faz viver mais. Muitas vezes choro e pergunto porquê e ele apenas me responde porque não. Acorda, vive e aprende, sente e recorda, precisas ver para sentir e o que sentes é a tua imortalidade do que sempre fomos. Tu e eu.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
"Pedra no muro"
Era um muro velho, construído de terra amassada pelas mãos, junto com a erva do campo para lhe dar mais robustez, tinha cinza, tinha cal, e aguentou-se ao vento e às chuvas, sem nunca perder a sua altivez.
Mas uma vez, uns olhos de menina, viram uma pedra linda no meio do muro velho, uma pedra mais antiga que o muro e pareceu-lhe mal que o muro a mantivesse refêm, prisioneira no meio de toda aquela terra velha. Pareceu à menina que o melhor era tirar, regastar ao mundo aquela pedra tão linda, para mostrar que o mundo era mundo antes do muro.
A menina tirou a pedra, com muito cuidado, para deixar o muro inteiro, mesmo que sem a pedra e continuasse a ser muro, mas o muro era de terra e a pedra fazia-lhe falta, por isso cedeu à falta e começou a cair, a se desfazer. A menina tentou mantê-lo em pé, de outras formas, de outras maneiras mas ele todos os dias caía um pouco mais, e agora que a chuva cai, cai um bocadinho mais...
É que à terra é preciso pedra e à pedra é preciso chão, tudo faz falta na construção. Na nossa também!
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