(Este blog é totalmente dedicado a Laura e Lara, para quem todas as mensagens que aqui posto, me dirijo. Sem dizer adeus.)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Estou feliz, o sol brilha e o barco onde navego nas calmas aguas do mar agita-se suavemente empurrado por uma leve brisa que sacode a o meu cabelo mas ainda assim deixando passar o calor, quente que passa através das nuvens sem lhes tocar para vir aquecer o meu corpo branco e sedento de cor. As gaivotas voam no céu azul, a areia é branca com leves traços de pérola e terra, ao longe as crianças correm onde as ondas lhe salpicam as pernas de água salgada e assim a vida se move comigo a olhar o horizonte levantando o braço ao alto para que a luz não me cegue e mas me deixe ver em tudo e tudo em plena harmonia com o que me toca...
E no entanto eu deixo-me cair, num cansaço que não sei explicar, porque não existe nada em concreto, nada real, mas assim me sinto, na melancolia dos dias, dos saberes e dizeres que torna tudo igual e sem sabor. Sou um naufrago do meu próprio barco que levantei hoje de madrugada para trazer ao mar, que desejava conhecer e agora me esmorece.  
Uma onda do mar é empurrada pelo vento e impulsionada pela agua, recua e sobe alto, agarrando e puxando toda a agua que encontra pelo seu caminho, na viagem que percorre até ao limite do mar, à rocha, à areia, aos pés de quem encontra, ali se permitir a morrer e recua vazia para dentro outra vez. 
A minha onda, a onda onde viajo não é essa, a minha onda é a curva da onda...a curva da onda...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Às vezes as coisas são tão simples como respirar. Simples assim. Sem pensar, só agir. Agir no que já foi pensado e estruturado, automatizado, sem erro e agir. Apenas respirar. Sem esforço, sem te sentires a puxar o ar da rua, frio de uma noite de orvalho, quente e seco que um Verão que te queima os pulmões, sem esticares o peito, sem um movimento, sem o sentires, sem agitares o ar de fora com a tua respiração, sem suspiros, sem bocejos, sem nada, sem respirar no acto pensado. Só respirar. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

"Onde ela estará?!!..."

Acabei o trabalho, fiz as limpezas, tudo estava certo, no seu lugar. E então vi-a entrar, por onde não sei mas voava cá para dentro, para o lugar onde eu estava. Era linda, simplesmente linda, de cores brilhantes . Selvagem como era estranhei que ali estivesse. Talvez encontrasse o caminho de volta para o ar da rua, que poderia eu fazer, ela era uma borboleta e eu não a conseguiria apanhar, mesmo que quisesse. 
Então fui, fui ao que era suposto fazer e deixei-a, deixei-a ali, no caminho dela que se cruzou com o meu e fui ao meu. 
Coloquei os olhos ao chão e lá estava ela outra vez, agora presa, por trás das grelhas.
Está parada e ainda bate as asas mas não voa. Como é que ela ali foi parar! Como foi que se ali conseguiu esconder para agora não conseguir sair. Agora não posso soltá-la, primeiro tenho outras coisas a fazer depois eu vou e a liberto. 
Então o que estou a fazer, faz o que não estava à espera e liberta um toxico mortal sobre a borboleta e eu continuo a pensar, é só deixar encher e depois vou, depois vou, só mais um pouco....Ela agora está deitada, as asas estão coladas como uma e consigo ver as respiração pesada e cada vez mais espaçada. Está a morrer. 
Agora a liberto, agora me lembro de a libertar, agora que está a morrer. Levanto a grelha e entalo o braço ao tentar agarra-la com cuidado para não a partir. Partir o quê...Ela está a morrer... Levo-a à rua e pouso-a em cima de uma banca para que o ar a tente reanimar, mas parece-me tarde embora as suas asas se agitem um pouco. Não posso ficar e vê-la, já alguém me chama e tenho de ir. Olho outra vez para ela e não sei se é o vento que a abana que é ela que está a lutar pelo ar que lhe sopra aos pequenos pulmões. Vou embora, faço o meu trabalho, cumpro o meu dever e agora que saio já não a vejo, não sei se voou, não sei se morreu, não sei se o vento a levou. Estava demasiado ocupada para me ocupar com ela e agora ela é todo o meu pensamento. Onde ela estará?!!...

terça-feira, 2 de abril de 2013

"A ela, só a ela e não eu..."

Uma vez, devia ter uns seis anos, fui com a minha mãe visitar uma rapariga já com quinze, vinte anos, que estava doente e internada num hospital. Era bonita, de cabelos negros e inteligente. Simpática, foi nisso que reparei enquanto a minha mãe e a mãe dela conversavam com ela. Ela quase não ouvia, olhava para a rua, para o sol que batia na janela, para as pessoas que passavam na rua e respondia em monólogos ou então assentia com a cabeça para não ter de se distrair com o som da sua própria voz. Ia quando desviava o olhar desenhando uns papelinhos que depois coloria. Eu pedi para os ver e fiquei maravilhada, era tudo perfeito, não era um desenho torto e estranho como os meus que saiam dos limites, eram perfeitos. Eu olhei para ela e sorri e disse - tu consegues fazer isto... Mas ela olhou para mim, colocou os desenhos para o lado irritada e disse que estava farta de estar ali, queira se ir embora... - Deixem-me sair...
Ela transformou-se na minha frente, o que ela era já não era e mesmo assim ainda não a via, porque eu não compreendia como alguém podia estar zangado quando conseguia fazer o que ela fazia, ela era perfeita e eu queria fazer o que ela fazia, como ela fazia....Mas ela era mais do que um desenho era o que estava lá fora, era a tempestade dentro dela e eu apenas via as linhas coloridas e ela queria que a visse a ela, queria que eu gostasse dela por inteiro e não apenas o bonito do que via. 
Se eu visse o feio dela, viria o feio de mim, e se gostasse do feio dela talvez também  gostasse do feio em mim e viria que não preciso ser outro mas apenas eu.
Não me lembro do rosto dela, não me lembro do nome dela mas lembro-me dela como ela queria que eu a lembrasse. A ela, só a ela e não eu...

sexta-feira, 22 de março de 2013

"Quando olho para ti"

O que sei quando olho para ti é que gostava que estivesses longe. Que não estivesses aqui mas do outro lado, do lado onde não me visses. Porque o que me incomoda não é o que dizes mas o que deixas por dizer e que te sei  ler sem dizeres uma palavra, no corpo que se move debaixo da tua roupa, no gesto surdo em que te mexes, no olhar cego em que me dizes olhar, no que me falas vou embora e te inclinas para a frente à espera que te chame. Sabes que não te quero aqui e por isso insistes em voltar. O que invejas em mim para me imitar só tu o vês, não conheço essa para quem olhas, vês alguém que não vejo e queres ser esse que não sei quem é. Preferia que te fosses embora, cada vez que olhas para mim, sinto o que sentes por mim, e estamos tão afastados nestes dez centímetros em que nos falamos que parece que nunca nos conhecemos. Ou conhecemos? Tu conheces alguém a quem fizeste adversário sem aviso, para na aniquilação dos dias se transformar em ti, alguém que achas que sou, mas tu és tu não eu. Eu conheço, eu conheço a ti, ou o que queria que fosses, o que achava que eras, no que te inclinavas para mim, no que eu pensava ou sonhava que se abria para mim. Não era, não és, e preferia que te fosses embora, não porque me incomoda o que dizes mas o que não dizes, porque quando me olhas me doí que me olhes, que me odeias ao ponto de teres de fingir que me amas. E não sei se foste tu que te transformas-te, se fui eu que te criei!!...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Perdi-me nos fios do Tempo
Em que as Moiras me fiavam o destino
Por ter cortado as cordas
Que me conduziam nas mesmas voltas
Acordei na hora do orvalho
Na primeira hora do dia
Uma pétala de rosa me trouxe
Um beijo em pensamento triste
Se te dissesse sim saberias que te disse não
Se te dissesse sim seria uma mentira
Te digo agora em vez de um sim um não
Para que a hora do sim não esteja perdida

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Comecei a falar tarde, bem, mas tarde. Não estava zangada com as palavras, compreendia-as e assentia-as em mim, mas não lhes respondia por sons. Respondia no grito do silêncio.
Os meus pais achavam-me graça e o meu pai dizia - Titi vai ali buscar-me os chinelos! E eu ia. - Titi, vai buscar o café do pai! E eu ia. Sem dizer palavra, e ia. 
Porquê Titi, de onde vem o Titi...Não é o meu nome mas eu ia. Ia e achavam graça! Eu não falar mas compreender e ir. 
Ainda sou uma criança calada. Calada. Muitas vezes calada. A calada que vai. Que não fala. E eu tenho tanta coisa para falar. Explicar em movimentos de sons ritmados o que digo quando estou calada. 
Porque eu falo. Oh se falo, tanto que por vezes já nem me posso ouvir e tenho de me calar. Apenas falo cá dentro, em registos inadiáveis. Porque é que não falo lá fora???..... 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De manhã ao frio, quando se sai de casa, a pele gela no rosto, como se uma  mão fria nos tocasse. Abro a boca e o calor do corpo sai em vapor quente mas por ter a boca aberta os dentes também esfriam e ao caminhar roçam na parte interior do lábio inferior. A pele aí é diferente, mais macia, talvez pelo constante contacto com a saliva. Roça, emudece, esfria e por entre os dentes o vapor quente surge. Roça e esfria e sem pensar a língua surge entre o lábio e o dente, quente e frio, mole e duro, seco da pele de fora, molhado da pele de dentro. Caminhas e a oscilação de tudo faz esquecer o frio na língua que se agita....

sábado, 9 de fevereiro de 2013

"As árvores também falam"

Disse para a criança a meu lado.
-Anda comigo. Vamos ajudar uma amiga que está doente.
-Uma amiga? Que amiga?
-Uma amiga dos dois e de toda a gente, embora nem toda a gente seja amiga dela.
-Como é que ela é?
-É grande mas já foi pequenina assim como tu.
-Assim como eu?
-Sim, assim como tu.
-E onde é que ela está?
-Está ali na praça, ao pé do banco onde nos costumamos sentar.
-O que é que ela tem?
-Está doente.
-Mas o que é que ela tem?
-Um caroço nasceu-lhe no tronco que a faz ficar triste e murcha. Nada a anima, temos de ir ajudá-la.
-Sim, eu quero ajudar.
-Então vamos lá, ela está à nossa espera.
-Sim.
-Olha, olha ali ela, no meio da praça.
-Onde? Não vejo nada!!!
-Ali! Mesmo ao pé do banco de jardim, no meio da praça.
-Mas eu só vejo uma árvore grande lá!!!
-Bem...!! É essa a nossa amiga!
-Amiga?
-Sim, ela é nossa amiga.
-E como sabes que está doente?
-Ela disse-me.
-Mas as árvores não falam!!!
-Falam sim, nós é que nem sempre a ouvimos. Gostamos mais de ouvir outras coisas.
-Então e como vamos ajudá-la?
-Fácil! É só preciso tirar este fungo que se agarrou à arvore e depois ela fica bem.
-Oh!! Mas ele é bonito e a arvore já é velha. Não o podemos deixar!
-Nem tudo o que é bonito é bom. Se o deixarmos ficar ele a matará e ela já não poderá mais ser tua amiga.
-Porque é que ela é minha amiga?
-Porque ela dá-te sombra nos dias de calor, oxigénio para respirares...os passarinhos que tu gostas de ouvir cantar fazem ninhos nos braços dela....
-Oh!
-Ela é nossa amiga!
-Se eu a abraçar achas que ela me ouve a dizer obrigado?
-Claro que sim. Vamos abraçá-la os dois.
-E ficamos os três abraçados!!...A ouvir-nos conversar!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"A alma da gente"

A alma da gente que a gente se esquece que tem. A alma da gente que de sorte existe na noite escura resiste e não nos deixa esquecer. Esquecer a noite, esquecer o dia, esquecer sabe-se lá mais o quê que a alma da gente tem. A alma da gente. Sempre a alma da gente que a gente acha que conhece, que acha que apalpa, que acha que está lá. A alma da gente que a gente não conhece e que se por alguma triste sorte a tivéssemos de procurar não saberíamos se era a nossa se a do vizinho. A alma da gente.
Mas o que é a alma da gente se te perguntarem, que lhes dirás que és! Procuras uma lista de adjectivos e significados, daqueles que dizem tudo e ninguém intende e despejas no outro esperando que não te pergunte o porquê e o quê. Porque o que lhe dirias se fosse a verdade, que se quisesses estar em longas delongas lhe dirias que não sabes o que és, que alma é essa que dizes que tens, a alma que a gente tem. 
Toda a gente tem dizem eles, eles que nunca a viram e dizem que tem porque lhes disseram que têm e se calhar até temos mas tu não sabes onde está, como está e como é, o que tu tocas é só o véu que a cobre. E não lhes podes contar sobre o véu, porque esse não é, não existe, o que é está por baixo,  essa é a minha e a tua, essa é a alma da gente, a alma que a gente tem.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Como é que te sentes, Emília?

O tempo parou, parou de rodar e eu parei com ele! Não sei onde estou, que lugar é este que me cerca, que chão é este que calco de pés descalços, que água é esta que corre, que céu é este que me cobre. Não sei nada! Estou parada essa é uma certeza mas certeza de quê se ainda agora vos escrevo. Vocês estão em mim, não posso esquecer, meu arco-íris dourado, meu sol sem fim...Sim, o amor não pára, não deixa de rodar, ainda que eu lance ancoras ao chão e diga alto. Essa inocência na doce imaginação minha em que vos crio, existe, é real e verdadeira, ainda que digam que não, que é fantasia, pura imaginação de artista inventor do nada. Risos, brincadeiras, círculos de festas e música vos embalam, na roda em que vos cerco!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"Era de manhã..."

Era uma vez...

Era uma vez uma rapaz, pobre, descuidado e feio, muito feio. No entanto era simpático, uma pobre alma bela no seu coração puro de sensibilidade ingénua de criança grande que só quer ser amado porque amar ele ama todo o ser que se lhe chega sem pedir nada. As gentes, os animais, a água, o vento, o ser que respira e o inanimado aos olhos pouco treinados que ali não vêm, na árvore, na pedra, na folha que cai a áurea perdida e encontrada do pó das estrelas.
Ele era assim, belo e feio, dependendo do ponto de vista de quem olha. Hoje era feio, e o feio era também gago desde muito pequeno. 
Estava ele a pensar na estação de comboios enquanto esperava pela sua partida, a pensar nos seus e na visita que lhes faria mais logo quando chegasse a casa. A casa que sempre o acolheu e entendeu e o soube amar como era. Estava ele assim distraído quando uma bela mulher com ele se cruzou, e ele não mais dela pode desviar o olhar. Ela tinha caminhado mais uns passos para a frente dele e com os pés já no limite da linha de comboios inclinava o corpo a tentar vislumbrar a silhueta do que estava à espera. Era de manhã, ainda cedo e uma luz ainda ténue a despertar o dia atravessava as telhas partidas do tolde que a cobria, modelando-a numa sombra-luz que a transformava num ser mítico e perfeito. 
E ele assim a olhava mas o olhar não lhe chegava e a ela se aproximou embora a medo, tremendo no corpo e na voz, tornando-se ainda mais gago do que o habitual.
- Me-ni-na. Eu que-ri-a a-ma-la!!
Ela virou-se assustada, não conhecia aquele homem que a abordava! 
- O quê? 
O feio não leu no rosto dela o susto e continuava encantado, perplexo e rendido ao ser que à sua frente estava.
- Me-ni-na. Eu que-ri-a a-ma-la!!
E ela assim o entendeu, levou as mãos ao peito, suspirou fundo e como que quando uma criança nos pede algo e a ela não sabemos recusar, assim fez ela e lhe entregou o que ao peito encostado tinha. A carteira!! 
Ele de carteira nas mãos, triste e lágrimas nos olhos disse. 
- Não me-ni-na, eu que-ria a-ma-la de co-ra-ção e não a-ma-la da car-tei-ra!!
E assim tudo se perdeu porque ela não o entendeu!! O dia se fez noite e tudo adormeceu!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Deixem-me rir, deixem-me rir alto, da loucura que nos invade no momento em que se ri, de gargalhadas sonoras, estridentes, incomodativos, censuradas, reais e verdadeiras. Deixem-me rir do meu próprio riso que me faz esquecer qual o riso primeiro. Deixem-me rir sem memória, sem saber do que rir, rir apenas rir. 
Deixem-me rir, ficar no rir. Não me façam parar nessas curvas , não me façam abrandar nessas linhas, deixem-me rir como se não soubesse o que era e mesmo agora o tenha descoberto, e como prenda aberta deixem-me tomar posse do meu novo brinquedo, desmonta-lo e monta-lo as vezes que quiser mas que seja meu, assim como veio assim quero que fique, com longas e demoradas cerimónias. Deixem-me rir antes que me esqueça...

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Fazer do pensamento lazer, ócio do Tempo e transforma-lo em prazer de ser. Escrever é ter coragem de deixar partir, porque quando escrevo e em seguida olho para o que ficou para trás, faz-me ver que já não sei se fui eu que dei uso à tinta, não que não me reconheça no que está escrito mas porque me olhei no que escrevi e no que disse e já não sou mais quem era, e faz-me pensar se quero ser o que está por diante ou se não será melhor ficar como se está.  Ainda assim a coragem sempre vem e sei que depois deste ponto final tudo vai mudar. Seja...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Cicatriz"

Tenho uma cicatriz na cara. No queixo.  Mesmo a meio do queixo. A linha do corte parece a silhueta de uma montanha, de uma onda do mar, de um caracol de cabelo, de uma raiz de uma árvore,  da curva de uma estrada, do meu sorriso interior inverso quando o de fora não sorri. Não preciso de me olhar ao espelho para saber aonde é que ela está, não preciso rever o meu reverso para relembrar a sua forma. Se tocar ao de leve com os dedos no meu queixo, cedo a descubro, a ela e à sua curva, à sua ruga, à sua idade, à sua história. Se lhe seguir com os dedos a linha da curva a leio como se estivesse às escuras. 
O que aconteceu? Nada de mais, caí, escorreguei e cortei a pele. Tinha dez anos. Nada de mais...Foi o que disse para mim mesma quando ao me levantar do chão senti o frio na cara e o sangue a escorrer ensopando as minhas mãos que apalpavam para saber o que é que se passava, o porquê da carne estar tão flácida...Mas a seguir, a seguir a que me levantei e levantei também o rosto e vi a expressão dos outros a olharem para mim, as toalhas que foram chegando e partindo manchadas de sangue, trouxeram em mim o espanto e a frieza da incredulidade de que me tinha magoado. 
Magoei-me e incomoda-me que cada vez que sorrio a cicatriz se mostre maior, que cada vez que me mostre triste a cicatriz revele a sua gorda ruga. Quase e digo quase que consegue passar despercebida se me olharem de cima para baixo mas não se me olharem debaixo para cima. 
Uma cicatriz! E que importância terá isso! Um corte na pele! 
Nenhuma se estivermos a falar de pele! 
Toda se estivermos a falar debaixo dela, dela, da cicatriz! 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

E se te dissesse que sempre soube o que era e que sabia o que era e mesmo assim disse que não ao que queria, ao que cá de dentro falava e ouvia o que dizia mas que não queria? E se te dissesse que escolhi não ouvir o que dizia essa voz, que me queria só no que era e ainda assim dizendo que não, fiquei só? E se te dissesse que mesmo dizendo o que digo não te estou a dizer nada? Porque ouves e calas e não me entendes! 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"A figura"

Então e aqui estou eu, esta policromática figura que não consegue ser una, que passa da figura dormente e assente na planura de um vale para a ferocidade dos ventos no cimo de uma montanha acometida por uma tempestade sem hora de acabar. Extremos opostos numa figura só. Talvez por isso e talvez não me engane seja assim una e não dupla no outro sentido da palavra que também pode ser dupla. Leve como o ar, sem cor ou pecado se torna na cor carmim do mesmo engano, vozes doces, calmas de monstros adormecidos que ao acordar emergem num sem sentido de todo sentido, nascida do macho e fêmea é assim que sou, suave e perdida por esse rio acima. Louca ou meio louca de sanidade satisfatória de cidadã cumpridora dos deveres civis sem disfarce, mistura-se na miscelânea do que é e que não consegue compreender como viaja em extremos em segundos. Como ninguém se reconhece em duas línguas, também não me reconheço em mim própria. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Ele sorria de orelha a orelha"

Lembro-me quando ele veio para casa, era pequeno, muito pequeno, cabia inteiro nas minhas mãos e tinha umas orelhas engraçadas, eram enormes, quase que tropeçava nelas se eu não estivesse a exagerar só um bocadinho. Esteve connosco dezasseis anos, uma vida que para ele deve ter sido muito maior do que a que podíamos ver do lado de cá. Veio para fazer companhia à minha mãe e foi a minha mãe que passou a fazer-lhe companhia. Era muito bonito quando era pequeno e a pele era de uma suavidade imensa. Nas brincadeiras próprias da idade estragava sem querer tudo o que lhe aparecia pela frente, brinquedos e mais foram sendo trazidos ou dados pelos amigos e vizinhos para que o pequeno se sentisse feliz. Quando sorria, sorria de orelha a orelha, os olhos ficavam vidrados, abanava a cabeça e espirrava, quão engraçado era, batia com as mãos e os pés no chão como se estivesse a dançar o samba, como se ele soubesse o que isso era mas para nós parecia e ria-mos junto com ele. Quando ficou maior e a chamada adolescência chegou, ficou musculoso  os braços e as pernas eram fortes e não fazia mais nada do que correr, queria era liberdade, qual quê estar preso, queria era rua. Foi quando descobrimos que era meio surdo, e não tinha qualquer tipo de sentido de orientação. Perdia-se pelos campos e fazia a família inteira andar à sua procura, a chamar e chamar por ele mas ele nada, ele não ouvia e quando finalmente o encontrávamos parecia envergonhado mas a gente sabia que era tudo fita para inglês ver, na próxima oportunidade ele voltaria a fugir. Quis ter namoradas mas só gostou de uma e essa não o quis, estava apaixonada por outro, não sei sequer se algum dia deixou de ser virgem. Pobre rapaz! Viveu a vida como quis, não valeram de nada as reprimendas nem os avisos para se portar bem. Comeu e bebeu bem, sorriu e viveu feliz! Um dia quando era Verão e eu estava de férias fora de casa a minha mãe telefonou-me quase a chorar, a dizer-me que ele tinha tido uma espécie de AVC se assim se pode chamar, que ficara como que dormente do lado direito e parecia que tinha ficado cego. Estava a morrer e era óbvio que não havia nada a fazer. Disse para mim mesma que era uma coisa natural, afinal já vivera até mais do que o era suposto viver mas doeu-me, doeu-me a sério, era uma parte de todos nós que iria partir, tantas histórias vividas, páginas partilhadas e todas elas iriam desaparecer como lágrimas à chuva. No dia seguinte a minha mãe voltou a telefonar-me. O inivitável tinha acontecido, já era tarde, ela chorou e eu também. Chamava-se Bobi e era o nosso cão, o nosso amigo fiel e meio louco, o nosso Bobi. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Linhas, curvas, textura, animal, cérebro, cerca, serra, certa, correta, corrente, presente, tigres, gatos, olhos, agua, rio, mar, barco, linhas, curvas, textura, animal.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Aprender a andar de bicicleta!"

Um dia, quis aprender a andar de bicicleta, todas a minha amigas já sabiam e até tinham bicicletas novas e faziam acrobacias de rua com elas. Outros tempos, quando não existiam jogos em casa, dentro de casa, nos quartos à porta fechada. Nesse tempo, no tempo em que eu quis aprender a andar de bicicleta, os miúdos andavam na rua e queriam-nos na rua que dentro de casa só atrapalhavam. 
Então um dia, um dia quis aprender a andar de bicicleta. Não tinha uma bicicleta nova, a que eu tinha era do meu avô, era enorme, já grande para o meu avô, maior para mim nos meus nove ou dez anos. Não chegava sequer ao selim para me sentar mas queria aprender e por causa dessa minha vontade fui ter com a minha mãe para me ensinar...Ela não podia, estava muito ocupada e além disso também ela tinha aprendido a andar sozinha, por isso eu que fizesse o mesmo. Pedi-lhe por favor anda lá, é só um bocadinho de tempo. Não posso vai lá tu sozinha! E eu fui, sem resmungar, sem falar mais nada, sem pedir mais nada, sem mais nada, fui. Fui para um caminho de areia eu e a bicicleta do meu avô, sozinha. A areia escorrega, sei isso agora mas antes não sabia: Não caí nenhuma vez, desequilibrei-me, sim, muitas mas não caí. E aprendi a andar de bicicleta, na bicicleta do meu avô. Estava contente, muito contente, aprendi sozinha como a minha mãe e fui-lhe dizer, contar a novidade. Mas ela ainda estava demasiado ocupada para me vir ver e apenas me disse que sabia que eu era capaz. Eu fui capaz mãe! E fui-me embora, sozinha, com a bicicleta do meu avô, procurar os melhores caminhos para a minha, também agora, bicicleta.