Uma mulher abraça em seu leito o mundo inteiro num sorriso, no sopro que vem da criança que está em seus laços. É uma mãe dizes. Porquê mãe? Poderá ser mãe, irmã, ama, tia, avó ou quem sabe uma desconhecida que se agarra nesse sono os sonhos e que tens razão é mãe também.
(Este blog é totalmente dedicado a Laura e Lara, para quem todas as mensagens que aqui posto, me dirijo. Sem dizer adeus.)
sexta-feira, 23 de março de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
"O que dizer"
Que palavras tenho mais para dizer, falar escrever senão as que já tenho repetido cá dentro vezes e vezes sem conta, sempre as mesmas, no mesmo pensar, no mesmo murmurar, talvez por estradas ou caminhos diferentes por vezes mas que conduzem sempre ao mesmo vibrar no divagar que os dias me trazem. Ainda assim as palavras vêm como se ainda não as conhecesse e sem permissão entram de rompante por portas e janelas. O que querem dizer não sei mas as aguardo ansiosa pela forma como vou responder.
terça-feira, 20 de março de 2012
"Beleza"
A paixão dos que tentam reinterpretar a beleza do que vêem e sentem jamais morrerá nos corações daqueles que sabem o que é amar.
sexta-feira, 16 de março de 2012
"Língua"
Uma palavra numa língua longe soa estranha, estranha com outro som em outro tom, diferente, dizendo o mesmo. Essa língua distante não é mãe mas irmã e se prende em seus símbolos quando me faz encostar nas paredes e escutar o silêncio e o bater dos tambores na vibração constante, crescente, descendente mas continua que electrifica, gela e sua no tremedouro dos tempos. Ouço o seu ritmo, argumento, sentimento, páginas soltas de um livro inacabado, rasurado mas desenhado em traços imprimidos de pele a pele.
quinta-feira, 15 de março de 2012
"Realidade"
Às vezes penso e por pensar confio nessa estranha sensação de gozo que na realidade não existe, mas se existisse seria o que sinto nas horas em que prendo a razão à guilhotina e me permito ser o que acho que sempre fui, aquele a quem se dissipam as névoas no sopro do coração, vence as batalhas sem magoas e que sabe que a realidades das coisas está muito para lá do que se vê e muito mais perto do que se toca.
quinta-feira, 8 de março de 2012
"Olhares"
Existe um tempo entre o tempo e o espaço que não sei como se chama ou chamam ou mesmo se terá nome. É olhar nesse olhar e dizer sou eu que ali estou ou sou e não outro que responde de igual modo. Como pode alguém não se reconhecer se no mesmo olhar se olha.
domingo, 4 de março de 2012
"Chuva"
Um pingo cai, se esmaga no chão seco, compacto, teso, preso, a poeira levanta e o ar que se cheira e se prende na garganta fica a saber a terra, essa terra que se apresenta estendida com sementes nos seios e anseios pela saliva dos céus cinzentos, não pretos nem brancos mas cinzentos na monocromática figura da harmonia das suas ondas. Outro pingo e outro e outro, cedo se forma uma poça, uma lagoa, um rio no corredio das valas, barrocas, margens levando e levantando o que encontra dos que fogem dessa agua fria que queima e se entranha, por medo de serem de papel ou mel, depois de aos seus refúgios chegarem e a ficarem a admirar. Essa água alimenta não mata, transforma e não toma, compõe canções com os sons que produz ao tocar em cada pedaço de ser, cada pedaço de ter, e à noite quando estiver estendida no meu leito, estenderá os seus braços das telhas às estradas como se de mantas se fizessem a envolver o seu bem amado.
sábado, 3 de março de 2012
"Mãos"
Iguais às das crianças, dedos um pouco gordos, tortos, talvez não tanto quanto se amostram mas como se apresentam nas regras dos desenhos arquitectónicos. Têm subtis cicatrizes que apenas os olhos experientes descobrem por conhecerem as suas lendas. São macias, secas, duras, curtas, imensas para os seus dizeres e afazeres, quase poderiam iludir pelo aspecto que têm a quem pertencem, não fosse as linhas azuis das silhuetas das árvores despidas no inverno tatuadas nas suas costas. Falam se a voz não soltar, como esponjas cheiram ao que se agarram e escutam, olhos do que não vê, aquecem e arrefecem no que sendo a primeira pele assim tocam no que se encostam na matemática da proporção.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
"Fome"
Poderei viver sem ter. Atravessar sem sentir ou exigir a troca na mesma volta. Posso só passar mas sem desejar, de olhos fechados vendo as sombras, jogos de luzes e cores. Caminhar pela estrada descalça, sentir as pedras que se cravam na carne, sentir a água dormente que trespassa os ossos e descongela na pele quente, esponja desse sal. Quero aquele todo das histórias infinitas e não finitas, a aurora boreal, a que continua e não inicia na quebra da instalada dúvida. Posso viver no breu sem conhecer o céu, seria sobreviver e quero viver o tudo do nada, gozo, conforto, paz, prazer, alegria e fome. Tudo isso me apraz no porto que se vê crescer no horizonte.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
"Ao lado"
Adormeço no mesmo lado, acordo no mesmo lado e ainda que diga que não o faço, porque fazer seria assentir numa verdade que ainda não foi julgada, ainda assim o faço. Caminho pela estrada paralela os mesmos passos como se por ser ao lado não fosse o mesmo. Quão louco é o que se nega por não saber a verdade, vive o passado como se do futuro se tratasse e esquece o presente por ser tão diferente. Alguém chama e a realidade clama, um sorriso se mostra, uma folha caí para logo o vento a levantar e levar a cortar a luz do sol que se mostra no leito do rio com cores quentes amaciando o tempo das andorinhas, respiro fundo o ar frio que limpa e clarifica, voam os meus passos e adormeço e acordo no mesmo lado.
"Hoje não há luar"
Uma rosa vermelha que vermelho a luz lhe trouxe, mas se não o fosse seria ainda rosa que rosa não é nome, nem cor mas flor. Hoje não há luar e as estrelas no céu as conta, o vento a sopra e a agita ao seu sabor mas de raízes se agarra à terra onde plantada fora, com mãos dedicadas da esperança de a poder abraçar mesmo que agreste as possa magoar. Não importa a efemeridade da cor, da beleza ou dor se é o seu perfume que perdura e aviva a memória de um só olhar, de sonhos imensos, de ternuras sóbrias, da vitoria de liberdade por se saber a verdade.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
"Espelho meu"
Espelho meu consegues ver alguém daí, porque daqui não vejo mais do que a planura lisa, dimensional e perfeitamente palpável do quadro surreal. Consegues ver o que vejo, és cego, sussurra-me, sopra-me ao ouvido esse vento quente de palavras difusas de dentro para fora. Consegues ouvir o que te digo, não me negues. Consigo ver quase por inteiro a cor do teu avesso, sim disse quase porque não ver tudo é deixar-te ainda um fundo que talvez não seja descoberto porque não precisava de o ser, mas que me faz procurar-te outra vez. Existe essa vaidade em mim que te assiste em me rever e olhar nas águas que a luz atravessa a uma velocidade menor que a de cá de fora fazendo o tempo passear em linhas curvas e extensas. E entre o ser e o parecer nos encontramos, por vezes nos vemos mas nem sempre nos amamos.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
"Só"
A palavra é um vomitar do que se tenta explicar. Significa nada, está só, isolada, perdida se a ela não se associar o corpo, o tacto e a voz. Conto as palavras de uma árvore na esperança que ela se revele mas poderia viver uma vida inteira sentada na sua frente sem as conseguir conhecer a todas. Um todo não é a palavra que o sol trás e o vento leva, a palavra é a profundidade do olhar de um cego, a coceira da perna amputada, a sinfonia de um surdo, o recital de um mudo, o cheiro sentido numa mãe de um filho perdido.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
"O tempo"
Olho para trás no pressentimento de ter deixado algo esquecido mas nada resta, tudo parte. O que é que ainda não encontrei se continuo com o mesmo vazio que não foi ocupado. Se não esqueci então perdi, se não está atrás estará adiante e talvez assim o meu olhar alcance o que for que se esconde. Estico os braços, forço, para fora, mais fora, os ossos estalam, esticam um pouco mais e encolhem, recolhem e aquecem. É este o tempo.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
"Palavra"
Herói de olhar
Noites perdidas em sonhos a ver
Não esperar nada e viver de tudo
Flores vivas no Outono despido
Soco no estômago de uma pena
Miragem em deserto de areia fina
Dom Quixote e Sancho Pança pesados na mesma balança
Mapa de estrelas que sem tocar se guia
Suspiro profundo em jeito de grito
Palavra em forma do que não quero dizer
Noites perdidas em sonhos a ver
Não esperar nada e viver de tudo
Flores vivas no Outono despido
Soco no estômago de uma pena
Miragem em deserto de areia fina
Dom Quixote e Sancho Pança pesados na mesma balança
Mapa de estrelas que sem tocar se guia
Suspiro profundo em jeito de grito
Palavra em forma do que não quero dizer
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
"Dias"
Um dia no céu no outro na terra, um dia o sapato o outro o pincel. Dias vão e vêm em montanhas e vales de sol estendido e de lua ao alto. Nada se repete por igual nem o amor nem a dor. Voo de Ícaro em esplendor maior que cai na realidade em rigor da gravidade. Perdidos guias ganhamos vias para uma nova ascensão, para um novo dia, um amanhã que aguarda em seu destino o já de si guardado.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
"Arcadas"
Tempo de espaços vagos, vazios ocos, repetição de olhares perdidos, sonhos de outros lugares, pensamentos em melancolias prenhe de desejos não cumpridos, não importa ou se importa a hora é agora, a de entrar nesse deserto de apenas esperanças, de realidades ilusórias, e no entanto talvez já tenha partido, e é lá que ele está, o órgão que pulsa a vermelho vivo a pura arte da fantasia. Alguém caminha a meu lado, mas não sei quem é porque não o vejo, não o ouço, não o sinto, a minha mente corre em outra estrada numa outra direcção, onde vou, para onde, para quê, porquê e porque não se esse não me faz sair de mim e voar para as arcadas do meu sorriso que o faz levantar mesmo quando não o vejo, e vêm em mim a mim como se viesse do fundo de um sonho.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
"Porto"
Quão longe estamos
Quando não somos
Mas ser é tudo
E é sempre encontrado
Nos campos verdes
Na água cristalina
No sol que queima
No vento que beija
Perder-te é sempre encontrar-te
Nessa busca constante
De vento crescente
Bordão de Esculápio
Fonte de águas mansas
Arcadas
Do meu Porto.
Quando não somos
Mas ser é tudo
E é sempre encontrado
Nos campos verdes
Na água cristalina
No sol que queima
No vento que beija
Perder-te é sempre encontrar-te
Nessa busca constante
De vento crescente
Bordão de Esculápio
Fonte de águas mansas
Arcadas
Do meu Porto.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
"Beijos"
Fio de cordel que me cruzas os dias, o temor, a perdição, a luz de dia e noite, a esperança e a ternura num laço cego. O passado está presente naquela janela aberta que deixei depois da porta fechar. O meu mundo, o nosso mundo é o mesmo, sempre o foi e sempre será. Não vêem os meus olhos mas toco e beijo nas lágrimas quentes que me fazem lembrar e não esquecer. O vazio está cheio porque estamos lá nesse lugar inventado e presente de chuvas nossas. Beijos me escorrem na cara vindos dos céus, expansões onde nascem as estrelas. Um momento, uma promessa não cumprida não pedida mas desejada que partiu e não fiquei mas fui. Fui e não mais voltei porque se voltar aquele diamante reluzente desaparece de mim. O meu precioso o meu mais bem amado doce o meu pedaço de vida em abundância. Não, não peço perdão, sem arrependimentos vemos-nos ainda uma vez mais.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
"De malas prontas"
Minha ternura
Minha longura
Que não perdi
Não me arrependi.
Espaços vazios
Cheios
Lugares imensos
Sós
Escuro da noite
Luz aceite
Chuvas tempestuosas
Ventanias soltas
História sem fim
Com cheiro a alecrim
Carregado de palavras
Estou de malas prontas
Minha longura
Que não perdi
Não me arrependi.
Espaços vazios
Cheios
Lugares imensos
Sós
Escuro da noite
Luz aceite
Chuvas tempestuosas
Ventanias soltas
História sem fim
Com cheiro a alecrim
Carregado de palavras
Estou de malas prontas
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