(Este blog é totalmente dedicado a Laura e Lara, para quem todas as mensagens que aqui posto, me dirijo. Sem dizer adeus.)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Arcadas"

Tempo de espaços vagos, vazios ocos, repetição de olhares perdidos, sonhos de outros lugares, pensamentos em melancolias prenhe de desejos não cumpridos, não importa ou se importa a hora é agora, a de entrar nesse deserto de apenas esperanças, de realidades ilusórias, e no entanto talvez já tenha partido, e é lá que ele está, o órgão que pulsa a vermelho vivo a pura arte da fantasia. Alguém caminha a meu lado, mas não sei quem é porque não o vejo, não o ouço, não o sinto, a minha mente corre em outra estrada numa outra direcção, onde vou, para onde, para quê, porquê e porque não se esse não me faz sair de mim e voar para as arcadas do meu sorriso que o faz levantar mesmo quando não o vejo, e vêm em mim a mim como se viesse do fundo de um sonho. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

"Porto"

Quão longe estamos
Quando não somos
Mas ser é tudo
E é sempre encontrado
Nos campos verdes
Na água cristalina
No sol que queima
No vento que beija
Perder-te é sempre encontrar-te
Nessa busca constante
De vento crescente
Bordão de Esculápio
Fonte de águas mansas
Arcadas
Do meu Porto.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Beijos"

Fio de cordel que me cruzas os dias, o temor, a perdição, a luz de dia e noite, a esperança e a ternura num laço cego. O passado está presente naquela janela aberta que deixei depois da porta fechar. O meu mundo, o nosso mundo é o mesmo, sempre o foi e sempre será. Não vêem os meus olhos mas toco e beijo nas lágrimas quentes que me fazem lembrar e não esquecer. O vazio está cheio porque estamos lá nesse lugar inventado e presente de chuvas nossas. Beijos me escorrem na cara vindos dos céus, expansões onde nascem as estrelas. Um momento, uma promessa não cumprida não pedida mas desejada que partiu e não fiquei mas fui. Fui e não mais voltei porque se voltar aquele diamante reluzente desaparece de mim. O meu precioso o meu mais bem amado doce o meu pedaço de vida em abundância. Não, não peço perdão, sem arrependimentos vemos-nos  ainda uma vez mais.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"De malas prontas"

Minha ternura
Minha longura
Que não perdi
Não me arrependi.

Espaços vazios
Cheios
Lugares imensos
Sós

Escuro da noite
Luz aceite
Chuvas tempestuosas
Ventanias soltas

História sem fim
Com cheiro a alecrim
Carregado de palavras
Estou de malas prontas




 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

"Doce morfina"

Doce morfina não me abandonou, 
continua existente, dormente, persistente. 
Bem-vinda ao meu mundo, ao meu lado mais profundo. 
Ombros encolhidos, olhos ao alto, boca fechada.
Pedaços se escolhem e recolhem em corridas de idas e voltas,
sem metas, limites ou barreiras. 
Doce morfina, doce retina, ampliada, dilatada, amplificada, 
retendo a luz que atravessa o beco de paredes altas esticando-se ao céu azul. 
Doce morfina não me abandonou.  
Bem-vinda ao meu mundo, ao meu lado mais profundo. 
Bem-vinda ao meu quadro pintado a traços largos, 
do qual se conta uma história sempre igual.
A morfina que revela sem pudor ou dor
mas que fala de si para si como se o não fosse. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Coisas que falam"

Coisas do que sou, do que fui e serei, coisas que importam, olham, coisas que existem e resistem, coisas que magoam e perdoam, coisas que persistem, coisas de coisas, coisas que são ou não e se o serão são coisas então, coisas que vi, senti, perdi, encontrei, reencontrei, testei, rompi, chorei e sorri. Porque coisas são coisas não deixam de o ser ou se algumas vez o foram continuam ainda a ser coisas que no futuro sempre perduram. Coisas que escrevo, leio, coisas de passagens, viagens, coisas de fora, de agora, coisas de cá dentro, coisas em malas, em espaço, em turbilhão, coisas do mar de ondas largas, infinitas, calma ilusória, coisas da terra quente molhada com cheiro ardente, coisas das cores que o vento tem, coisas que o sol trás e leva, coisas por coisas, coisas de um mundo inteiro, coisas na palma da mão, coisas estendidas, distendias, permitidas, despidas, vestidas, impedidas, comprimidas, cruzadas, coisas na face das coisas. Coisas que falam.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"À procura da perfeita imperfeição"

O vaso partiu
Caiu e não mais foi quem era
Colei-o mas se coibiu
A tornar a voltar à terra
Quão leve é quão frágil se mostra
A segurar a flor que dentro dele nasce
Mas a suporta com maior sorte
Mesmo que o seu peso se lhe não perdoe
Que procura é esta que encerra
A procura da perfeita imperfeição
Num singelo dia em que se partiu
Mas onde restou ainda o cerne
Do que é mais que perfeição.

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

"Uma gargalhada"

Sou o que sou, faço o que quero e consigo voar, tocar o céu, como posso, como consigo chegar ao infinito.  Mas  eu, eu não consigo derreter a imagem de cera que está à minha frente, fria, crua e nua. Encosto a navalha de raiva no seu pescoço forçando a confissão de culpa, que chega sem demora. E olho, respiro fundo, dou um passo atrás e rio, uma gargalhada de desprezo, de nojo, de inacreditável superioridade. 
A cera não me queima, não me aquece, não alumia, não tem cor, não existe ou se existe é de mera servidão útil. sem qualquer artificio ao olhar. Agora é dia e a luz é outra, agora rio e digo não importa porque eu sou. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

"A pele que habito"

A pele que habito critica-me, envergonha-me, admiro-a, espelha-me, incomoda-me, é suave, dura, beleza, escudo, ensina-me, tem personalidade própria, um outro eu que nem sempre  responde, menor ou maior a minha outra metade. A pele que habito, habita em mim, porque é o que sai de mim que a transforma no que é,  no reflexo do que vêm mesmo que não grite ou fale ele se manifesta sem controlo algum. Conhece a minha história e recorda-o melhor do que eu o esquecer em que se força a memória na tentativa de sobreviver ao que chamamos dor, mas ele sabe e não apaga a lembrança e faz-me reviver tudo outra vez. 
Ela é peso, história, memória, vida, perdão, coração. A pele que habito sou eu. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

"Talvez não..."

Quão estranho é estar no meio de uma multidão e sentir-se singular, ouvir os seus murmúrios, a intensidade da suas vozes, o som das suas gargalhadas, os risos escondidos e mesmo assim parecer que entrei numa sala vazia com a televisão ligada. Sons de fundo, não me dizem nada e talvez não devesse ser assim. 
Sento-me com as crianças, brinco e magoo-me, rio, despenteiam-me, sinto-me melhor com elas e talvez não devesse ser assim.  
Sou um adulto, responsável por vezes demasiado independente, difícil de pedir ajuda a alguém, cruel e fria muitas vezes, mais do que as que queria, que não espera nada do mundo excepto o que conquista,  que não confia, que segura um velho e uma criança pela mão e os ajuda os dois a travessar a estrada. Sei que gostam de me ver nesta posição, transmito-lhes força. Também gosto por vezes mas nem sempre e talvez não devesse ser assim. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

"Gritar"

Por vezes as pessoas há minha volta aborrecem-me de tal maneira que chego a odiar-me por as achar tão desprezíveis...Não, é mentira eu não odeio sinto indiferença o que ainda é pior porque odiar é sentir. Finjo que está tudo bem porque sei que tudo foi um jogo e que sou um peão na sua história, faço-me de heroína da minha mas é uma mentira escondida por um simples véu.
Quero liberdade, fugir de mim e do que os meus olhos vêm, correr, correr, correr...Gritar...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Ouro sobre azul"

Vida, momentos perfeitos, são os que se encontram em apenas segundos de existência no enorme vazio do negrume da noite. Podemos encontrá-los ao alcance de uma mão e mesmo assim continuarem demasiado longe, mas é nessa contradição de um sim e um não que eles se encontram, porque podem não ser inteiramente nossos, mas fazemos parte de um mesmo cenário, somos a mesma história. Feliz é ser feliz com ou sem se ser feliz também. Sentir, desejar e ver e mesmo assim ser, transformar um pôr-do-sol inalcansável de tocar ou beijar, visto ao alcance de uma mão, sentada num muro qualquer nos breves momentos em que se assiste ao último encontro do sol com a terra numa explosão de alegria e cor e transformar toda a história em ouro sobre azul. 

"Só"

Mãe e pai...sinto saudades dos dois, mesmo quando estão ao meu lado, mas quando a noite adensa e a escuridão do sono se revela, sinto que estou só antes mesmo de estar.

sábado, 19 de novembro de 2011

"Talvez"

As coisas são como são
não são o que dirão
porque o que dizem é mentira
não passam de fases de agora.

O agora diz que talvez
o passado disse outra vez
e o futuro dirá  não, não vês,
o que viste é apenas talvez.

E nessa confusão
de um mundo em abolição
curvo a cabeça em aceitação
de um não com convicção.

Fica um talvez sem ruir
transformado em titã
capaz de construir
uma história infinita.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Hábito"

O ser humano é uma criatura onde mudando os seus padrões continua com os mesmos hábitos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Lucidez"

Negar-mo-nos a nós mesmos é ter tido em alguma altura da nossa vida, a lucidez de ver quem realmente somos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Aqui estou"

Empurras e puxas, esmurras, caiu ao chão e sinto o sangue frio e pegajoso escorrer pela minha face cegando-me a vermelho. O corpo doí, as articulações rangem e é difícil levantar, talvez fosse melhor desistir. Sim desistir seria o melhor, o mais aconselhável. Mas me ergo uma vez mais para o próximo soco, e para outro e para outro, sempre. Talvez fosse melhor desistir. Talvez. Me ergo para o começo a partir deste final que me trouxe ao chão, para um novo início.  Aqui estou, é só isso que tens para oferecer. Outro soco, outro início. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"O vento no rosto"

Acordar com o vento, o vento que trás as nuvens e a chuva que me lava o rosto, que as leva para longe deixando o calor do sol aquecer o corpo frio da noite. O vento que forma as ondas do mar, que destrói com fúria  e sopra aos meus ouvidos palavras inauditas. O vento que assobia e ri em gargalhadas ruidosas, que está em todo o lado e lugar nenhum, de todas as cores. Com olhar canibal, sempre a pedir mais, partes e regressas sem explicações. De argumentos e ilusões és tu feito. 
Como é bom assim acordar com o vento no rosto.

sábado, 22 de outubro de 2011

"Não ser"

Gostava de não ser eu, mas um eu mais maleável, acessível, corruptível, possível de ser.
Mas depois de ser esse outro ser que não eu mas outro, gostaria de sê-lo não conhecendo este outro deste lado ou quereria voltar a ser o que sou, pois o que sou é um só, inegável, inviolável, impossível de ser ou ter, que não sabe ou soube ou saberá jamais o que é ser.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011